Favor
14/11/2009
— Quer que eu a segure na cintura?
— Como é que é?
O ônibus estava ligeiramente cheio e em pé, eu me via às voltas na tentativa de me segurar e prender o cabelo ao mesmo tempo.
— Eu seguro a sua cintura enquanto você ajeita o cabelo.
Encarei-o perplexa. Jamais vira aquele homem antes. Não podia acreditar no que me propunha tão ingenuamente. Que absurdo! Como se eu fosse lhe permitir que tocasse a minha delgada cintura!
— Não, obrigada! — recusei de modo desconfiado e cauteloso, e insisti até conseguir prender sem muita habilidade o cabelo num coque.
— Disponha — respondeu ele, o rosto se abrindo para mim em um belo sorriso cheio dos mais alvos dentes que já vira na vida.
Então, a perplexidade deu lugar à curiosidade, e passei a observá-lo. Eu segurava no balaústre à frente de seu banco. De fato, eu estava mais voltada para o banco da frente, mas isso não o impediu de me oferecer um favor tão inusitado.
Alguns momentos de observação, e notava que não apenas o sorriso era bonito. Os olhos eram de um castanho profundo, e o rosto anguloso com traços expressivos de modelo. Aliás, aquela barba por fazer e o cabelo liso em corte baixo o deixavam com a inegável aparência daqueles deuses que eu tanto cobiçava ao assistir os desfiles de moda na TV.
Ele olhava pela janela, completamente absorto. Não parecia considerar que pudesse importunar a distinta senhora de cabelos brancos que se sentava ao seu lado. Eu me incomodaria se alguém sentado ao meu lado começasse a olhar tão fixamente pela janela estando eu no assento do canto.
Aproveitei-me de sua abstração para examinar o resto: seu corpo. Analisei-o: era grande — ele deveria contar com mais ou menos 1,85m de altura — e parecia bastante definido. Eram patentes ali, por sua camiseta decotada em V — bem na moda —, os vestígios de qualquer rotina de exercícios físicos. Mas não me parecia bruto-musculoso. Baixei o olhar até suas mãos, e então, senti o gosto amargo do arrependimento.
Um modelo italianesco se oferece para segurar minha cintura e eu o repilo com a ojeriza que dispensaria ao assobio de um reles operário da construção civil!
Endireitei a bolsa no ombro, e segurando na coluna de metal com ambas as mãos, fechei os olhos e me concentrei. Podia vê-lo na minha frente: sentado na ponta da cama, completamente nu, e o sorriso resplandecente na face. E em pé diante dele: eu, também completamente nua. Deixo que suas mãos me apalpem a cintura com firmeza e determinação, e permito que seu ardor me conduza por sendas luxuriosas. Aquelas mãos esculturais e viris tateando minha pele, inflamando-me o corpo. Fecho os olhos e sinto seu toque subir até os meus seios que, ao seu voluptuoso entusiasmo, respondem com imediata turgidez. Ele se detém a brincar com minhas saliências feminis por um pouco, enquanto avanço pelos veios do prazer. Estou à beira do zênite. Suas mãos descem novamente à cintura, e ele me guia até seu colo de fálica intumescência, com o qual, ao menor contato, sei que explodirei…
— Ei!
Abri os olhos sobressaltada, e um homem de cabeça redonda, cabelo de cuia e bigodinho sem-vergonha olhava para mim.
— A senhorita não vai se sentar?
— Mas é claro que vou me sentar! — respondi confusa. Mas o que esse idiota estava falando? Como não me sentaria? Será que não se pode tomar conta da própria vida? E quando ensaiei fechar os olhos novamente, um estalo, e notei o assento vago.
Desconcertada, tornei-me para o homem de cabeça redonda, que sustentava uma expressão interrogativa para mim, e lançando-lhe um meio sorriso, assentei-me.
Uma vez sentada, empertiguei-me acertando o vestido um pouco curto e depositei a bolsa que levava ao ombro em meu colo. Observei a minha volta. Havia poucas pessoas em pé, e a maioria concentrava-se na parte da frente do veículo. Olhei para o canto e vi uma elegante senhora cujos cabelos portavam toda a sua senilidade. Outro estalo. Era aqui onde ele estava sentado! Oh! Mas onde estaria agora?
O ônibus parou, e olhei instintivamente para o ponto. Ele acabara de descer. Era alto mesmo. Acompanhei-o com o olhar enquanto se afastava. Ainda não foi desta vez. Suspirei, e reconheci: precisava de sexo.
Lar
22/10/2009
“Incompetentes!” — exclamo quase inaudivelmente enquanto me dirijo ao ponto de ônibus, ainda um bocado movimentado conquanto já passasse a hora do almoço.
Cansado após uma movimentada manhã, a qual começara cedo demais e envolvera treinos de direção na autoescola e algumas compras, eu interrompera meu percurso habitual até a casa para passar na faculdade. Haviam-me requerido qualquer papelada de discutível relevância, cuja entrega era devida até a véspera da iminente colação de grau.
Mas como se não me bastasse o cansaço, ainda me coube ser enredado pela supérflua burocracia em rotinas administrativas da academia. Faltava-me um documento, sem o qual não poderia entregar os demais, que, embora tão fundamental fosse, houvera sido negligenciado na lista que eu recebera da universidade por correio eletrônico.
Tomado de súbito furor e profundo desagrado com a aparente inutilidade dos secretários da instituição, rumei para o ponto. Mas não me detive por muito a pensar na ineficiência alheia, logo permitindo me ocupar a mente tópicos um tanto ou quanto mais perturbadores.
‘Não devia ter comprado aquela camisa… Sim, eu precisava de uma daquela cor. Mas não já tenho outra? H’mm, não. Eu não repetiria aquela peça numa ocasião semelhante em que estivessem presentes as mesmas pessoas…’
Sujeito à voluntariosidade dos pensamentos que me absorviam, não noto que já passava do ponto de parada. E quando dou por mim, passara do posto de gasolina localizado a duas dezenas de passos de meu destino imediato.
Paro e olho para trás. Considero volver, mas não o quero. Antes, prossigo; e começo subir a ladeira daquela pista lateral à rodovia, por onde passam os ônibus até o pedágio. Sempre quisera voltar andando para casa. Não via melhor oportunidade. O céu convenientemente nublado ocultava o sol estrategicamente, eximindo-me de inquietações concernentes à irradiação solar e seus efeitos.
Subo a via olhando para as casas em nível mais baixo a minha direita. Simples em sua maioria, não apresentavam sinal de vida alguma, exceto por um casebre, cujo morador se utilizava de uma torneira e um espelho externos para escovar os dentes. Próximo dele, um cachorro da raça pitbull de corrente e coleira deitado no chão de terra batida. Observo descomedida e irrefletidamente o homem, até que este, virando-se bruscamente para a rua, percebe que eu o observava. Desvio o olhar resoluto, e continuo a subir.
Um ônibus da viação em que costumava viajar passa ao meu lado. Aquele poderia ser o ônibus que pegaria para casa. Mas era já tarde. Decidira-me por ir andando. Pelo menos, economizaria R$ 2,20. Humpf! Como se tal quantia me absolvesse do fato de ter computado gastos admissíveis para parcelamento em até quatro vezes sem juros no cartão de crédito.
Já sinto pesar a bolsa que me pendia às costas apenas pela alça sobre o ombro direito. Antes de descer do ônibus, enfiara as sacolas de compras na mochila. Não havia por que ostentá-las naquele local, menos ainda me agradava a ideia de ociosas secretárias da faculdade ponderando minhas compras matinais.
Mudei de ombro a mochila — gesto que se repetiria várias vezes ao longo de todo o meu itinerário — assim que terminei a subida. Neste ponto, a pista se divide em duas: para o viaduto à esquerda que leva à pista do outro lado da autovia, e adiante.
A via lateral teve seu curso escavado na encosta de dois morros consecutivos. Logo, o trajeto à frente consiste de uma depressão até o nível da autopista, e as poucas construções no trecho entre um morro e outro compreendem casas modestas e um centro de reciclagem, com imensas caçambas cheias de sucata próximas da calçada por onde eu caminhava. Os cimos dos montes são cobertos de vegetação com pequenas árvores.
Após o segundo morro, inicia-se outro bairro — são dois até o meu —, e já é possível divisar a praça do pedágio ao fundo, que se limita por um pequeno monte forrado de vultoso arvoredo do lado esquerdo, e as casas da vila do outro lado. A vila deve contar com uma centena e meia de casas. Assenta-se em terreno plano, sendo delimitada ao fundo e aos lados por montanhas cobertas de mata atlântica. Ali, o céu mais densamente encoberto, e no cume de uma das montanhas, resíduos de uma indolente nuvem que se tardava a subir.
Sigo pela lateral direita do pedágio. Um suntuoso sedã preto passa por mim, freando gradualmente até chegar à passagem especial. Atento para a placa do automóvel. Azul. Placa identificativa de missão diplomática. Seria um enviado de algum consulado ou de alguma embaixada no Rio? Poderia até mesmo ser um cônsul ou embaixador, que subia a serra a fim de visitar algum amigo aristocrata. Ou talvez o diplomata fosse habitante da cidade imperial, e abreviando sua jornada de trabalho, retornava a Petrópolis mais cedo.
Retiro o celular do bolso frontal esquerdo da calça e olho as horas. Quase duas e meia. Ótimo horário para um diplomata encerrar seu expediente em plena terça-feira.
Imediatamente depois do pedágio, situa-se um posto da Polícia Rodoviária Federal, e presencio a vistoria de uma carreta por alguns policiais enquanto sigo caminho.
Passado o posto da polícia, um ponto de ônibus e uma passarela que marcam o fim da primeira vila. Esquivo-me da passarela para a direita, e vou em direção à mureta que separa a nova via lateral à rodovia e que provém da vila. Essa pista, sem comunicação direta com a autoestrada, sobe a encosta de um morro no mesmo esquema dos dois anteriores.
No topo da pista, um carro de bombeiros com dois homens uniformizados. Um em cima do caminhão, direcionando uma mangueira a jorrar água para o pico do morro, e o outro ao lado do veículo a observar o primeiro. Ao passar, eles me olham casualmente, logo voltando sua atenção para o trabalho. Decerto que estivessem a apagar o principiar de uma queimada no capim seco que cobria quase todo aquele outeiro. Não vi fogo algum. Todavia, ao ajeitar os óculos, um resquício de cinza própria de vegetação incinerada depositou-se no dorso de meu punho.
Àquele morro sucede-se a segunda vila. As casas, em menor número quando comparadas às da localidade anterior, dispõem-se em quarteirões planejados. Há também vários terrenos baldios. Atingindo eu o nível plano da calçada, uma rajada de vento me açoita. O farfalhar dos galhos de uma robusta árvore acorda um dos três cachorros, que sesteavam preguiçosamente estirados aqui e ali no terreno de um domicílio pelo qual eu passava.
Com o telhado colonial enegrecido e as paredes com a pintura branca desgastada, a casa era pequena e não possuía varanda. Exibia, porém, o que se assemelhava ao malogrado ensaio de um frontão à porta principal, que dava para o pequeno quintal em frente, o qual se estendia até os fundos da propriedade, apresentava porções encimentadas e outras de terra, e era cercado por um muro baixo. O portão de ferro que lhe dava acesso à rua estava parcialmente enferrujado e não devia ter mais que um metro e meio de altura.
Aqui, o céu inteiramente encoberto, e o vento continua, mais ou menos constante, a soprar em múltiplas direções. Ando pela vila, na rua mais próxima à autoestrada, vou me deparando com alguns moradores, os quais parecem me olhar levemente intrigados.
Fazia mais de dez anos que não transitava a pé por ali. De fato, mal me recordava da última vez que caminhara por aquele lugar. O trajeto da faculdade a minha casa não deveria exceder três quilômetros. Sempre o cumpria de ônibus, levando um tempo de até quinze minutos, incluindo as paradas.
Avanço a passos sempre no mesmo ritmo: nem muito ligeiros, ou muito vagarosos, em compasso que me permitisse estudar o entorno. Discirno uma gente simples: um grupo de cinco rapazes conversando sob uma árvore; um casal de idosos sentados em cadeiras de praia observando o movimento da rua a partir do portão de sua residência; um rapazinho descamisado pedalando uma vetusta bicicleta.
Não sei ao certo em que parte a segunda vila termina e começa o meu bairro, mas antes de transpor o posto de gasolina já distingo a bifurcação da rodovia: uma pista para subir a serra, e outra procedente da descida. Mais ao fundo, contemplo os morros cobertos de vegetação abundante — sempre aquela árvore de folhagem mais translúcida entre as de folhagem verde mais escuro. E no horizonte, a serra verde imperial salpicada de nuvens: prenúncio de chuva.
No ponto de ônibus próximo, alguns estudantes à espera de condução; no posto, frentistas diligentes, ágeis em prover os motoristas com o combustível para continuarem seu percurso. Também eu continuaria o meu.
Como um romano regresso que ao avistar as elevações da ruma reconhece o seu lar, ao vislumbrar as minhas colinas suspirei e reconheci: estou em casa. Parei, passei a mochila de um ombro ao outro pela última vez, e me dirigi à antiga rua de paralelepípedos.
*ruma foi o nome dado, pelos seus primeiros habitantes, à região compreendida entre sete colinas no Lácio, onde mais tarde se fundaria a cidade de Roma.