Autoaceitação

20/11/2009

Olivetti Lettera 82

"Recuso confinar-me à padronizada posição dos dedos, antes prefiro correr solto..."

“Estou que me obedeço. Tentava ainda agora estudar finanças há muito abandonadas, mas fui tomado por súbito desejo de escrever. Resignado, atendi prontamente ao anseio mais imediato. Foi também assim antes do estudo financeiro. Lia minha tão aclamada escritora predileta quando, pecuniário que sou, deixei-me levar pela nostalgia dos cálculos monetários. E decidi por me acatar. Eu me exigia ser.
            E por falar em minha escrivã favorita, eis que tenho me regozijado já há dois dias com as páginas de três de suas obras, as quais me aconteceu comprar naquela abafada feira de livros. Os descontos eram bons, o dinheiro estava disponível. Mas conquanto fossem novos, meus exemplares foram sujeitos a qualquer medida de poeira urbana, que milimétrica e metodicamente removi, com esmero ritual de sacerdote que consagra a oferta mais requerida, para só então provar das libações de seus escritos.
            Assim, uma vez envolvido na trama tão perfeitamente tecida e entretecida de suas palavras, qual não foi minha surpresa e admiração ao perceber que boa parte das expressões e sequências sentenciais que uso assemelham-se às utilizadas por tão grandiosa escritora! (Não apenas sorvo a significância dos textos, mas também analiso e me comprazo nas estruturas verbais em que se alicerçam. O eterno binômio conteúdo-forma.) E me enlevava pelo reconhecimento da nobre influência.
            Mas que fique bem claro que não é intencional. Permito influenciar-me pelo que amo, mas jamais cometeria o equívoco de me comparar ao que tanto admiro. É que, humilde, reconheço minhas imperfeições e, ao sondar de minhas profundezas, repreendo e expurgo o menor vestígio de automiopia. E se não me dou de todo a conhecer aos demais, não é indício de soberba. Não, não só não sei escrever, como também assumo minha vasta ignorância.
            O constatar da verdade é por vezes doloroso, e embora não me iluda a mim mesmo, optando pelo risco de horrorizar-me com as áridas escarpas que diviso quando me olho ao espelho, fraquejei ao sentir magoada a face após dura bofetada do verdadeiro. Compreendo, porém, que a miséria não é completa até que seja por outrem comprovada. Está confirmada, enfim.
            Entretanto, é manhã: o sol invade com seus raios audaciosos o meu quarto, os bem-te-vis incessantes pipilam. E ao tomar o caderno para nele ensaiar mon stylo, reparei nas páginas avulsas outrora datilografadas, e me sobreveio a vontade de escrever à máquina.
            Muito me apraz datilografar, e me agradam as letras levemente manchadas da senil sinceridade dos tipos. Todavia, não datilografo bem. Recuso confinar-me à padronizada posição dos dedos, antes prefiro correr solto, e os eventuais erros da ingênua liberdade, por mais corriqueiros que sejam, corrijo com longânime determinação.
            Sim, já posso sentir aumentar a exigência de me autossubmeter novamente, portanto, encerro aqui a diligência caligráfica para passar à pressão tipográfica. A verdade porém, esta prossegue ininterrupta.”

Favor

14/11/2009

            — Quer que eu a segure na cintura?
            — Como é que é?
            O ônibus estava ligeiramente cheio e em pé, eu me via às voltas na tentativa de me segurar e prender o cabelo ao mesmo tempo.
            — Eu seguro a sua cintura enquanto você ajeita o cabelo.
            Encarei-o perplexa. Jamais vira aquele homem antes. Não podia acreditar no que me propunha tão ingenuamente. Que absurdo! Como se eu fosse lhe permitir que tocasse a minha delgada cintura!
            — Não, obrigada! — recusei de modo desconfiado e cauteloso, e insisti até conseguir prender sem muita habilidade o cabelo num coque.
            — Disponha — respondeu ele, o rosto se abrindo para mim em um belo sorriso cheio dos mais alvos dentes que já vira na vida.
            Então, a perplexidade deu lugar à curiosidade, e passei a observá-lo. Eu segurava no balaústre à frente de seu banco. De fato, eu estava mais voltada para o banco da frente, mas isso não o impediu de me oferecer um favor tão inusitado.
            Alguns momentos de observação, e notava que não apenas o sorriso era bonito. Os olhos eram de um castanho profundo, e o rosto anguloso com traços expressivos de modelo. Aliás, aquela barba por fazer e o cabelo liso em corte baixo o deixavam com a inegável aparência daqueles deuses que eu tanto cobiçava ao assistir os desfiles de moda na TV.
            Ele olhava pela janela, completamente absorto. Não parecia considerar que pudesse importunar a distinta senhora de cabelos brancos que se sentava ao seu lado. Eu me incomodaria se alguém sentado ao meu lado começasse a olhar tão fixamente pela janela estando eu no assento do canto.
            Aproveitei-me de sua abstração para examinar o resto: seu corpo. Analisei-o: era grande — ele deveria contar com mais ou menos 1,85m de altura — e parecia bastante definido. Eram patentes ali, por sua camiseta decotada em V — bem na moda —,  os vestígios de qualquer rotina de exercícios físicos. Mas não me parecia bruto-musculoso. Baixei o olhar até suas mãos, e então, senti o gosto amargo do arrependimento.
            Um modelo italianesco se oferece para segurar minha cintura e eu o repilo com a ojeriza que dispensaria ao assobio de um reles operário da construção civil!
            Endireitei a bolsa no ombro, e segurando na coluna de metal com ambas as mãos, fechei os olhos e me concentrei. Podia vê-lo na minha frente: sentado na ponta da cama, completamente nu, e o sorriso resplandecente na face. E em pé diante dele: eu, também completamente nua. Deixo que suas mãos me apalpem a cintura com firmeza e determinação, e permito que seu ardor me conduza por sendas luxuriosas. Aquelas mãos esculturais e viris tateando minha pele, inflamando-me o corpo. Fecho os olhos e sinto seu toque subir até os meus seios que, ao seu voluptuoso entusiasmo, respondem com imediata turgidez. Ele se detém a brincar com minhas saliências feminis por um pouco, enquanto avanço pelos veios do prazer. Estou à beira do zênite. Suas mãos descem novamente à cintura, e ele me guia até seu colo de fálica intumescência, com o qual, ao menor contato, sei que explodirei…
            — Ei!
            Abri os olhos sobressaltada, e um homem de cabeça redonda, cabelo de cuia e bigodinho sem-vergonha olhava para mim.
            — A senhorita não vai se sentar?
            — Mas é claro que vou me sentar! — respondi confusa. Mas o que esse idiota estava falando? Como não me sentaria? Será que não se pode tomar conta da própria vida? E quando ensaiei fechar os olhos novamente, um estalo, e notei o assento vago.
            Desconcertada, tornei-me para o homem de cabeça redonda, que sustentava uma expressão interrogativa para mim, e lançando-lhe um meio sorriso, assentei-me.
            Uma vez sentada, empertiguei-me acertando o vestido um pouco curto e depositei a bolsa que levava ao ombro em meu colo. Observei a minha volta. Havia poucas pessoas em pé, e a maioria concentrava-se na parte da frente do veículo. Olhei para o canto e vi uma elegante senhora cujos cabelos portavam toda a sua senilidade. Outro estalo. Era aqui onde ele estava sentado! Oh! Mas onde estaria agora?
            O ônibus parou, e olhei instintivamente para o ponto. Ele acabara de descer. Era alto mesmo. Acompanhei-o com o olhar enquanto se afastava. Ainda não foi desta vez. Suspirei, e reconheci: precisava de sexo.