Amanhece, e uma suave brisa refrigera meu corpo lânguido. Estirado me encontro mais uma vez no tão familiar sofá defronte à sempiterna porta de ferro. A vidraça inteiramente aberta, vejo o amanhecer lá fora. Se apuro bem a visão, consigo enxergar o serenar. Ver o sereno pela manhã é fenômeno comum e ao mesmo tempo raro — da mesma raridade que é deparar-se com uma joaninha vermelha nas folhas de um girassol. Faz tempo que não vejo joaninha alguma, vermelha ou marrom. Sim, há variação de cores nas joaninhas. Algumas possuem o casco de um marrom-claro. Não é algo belo. A beleza do casco vermelho salpicado de pontos pretos — padrão da joaninha — é insuperável. Mas de todo modo, ver uma joaninha é sempre motivo de exclamação.
Quando menor, eu tinha o costume de acordar muito cedo, coisa de seis horas da manhã (o horário em que escrevo este texto é próximo desse, considerando-se o fuso de verão), e saía para o quintal virgem contíguo ao quintal imediato, hoje, completamente encimentado. Esse quintal virgem, assim o chamo, pois nele jamais se construiu casa de fato. Houve em certos períodos, algumas formas de edificação, mas nenhuma configurou uma casa propriamente dita. E tal terreno é coberto de vegetação: árvores grandes e pequenas e bastante mato. Como dizia, eu saía para o quintal anteriormente descrito e sempre encontrava uma joaninha. Isso todos os dias. Não havia erro: era passar pela vegetação que me deparava com uma joaninha em alguma folhagem ou em mim mesmo, pois ela vinha ao meu encontro.
Entretanto, eu cresci, abandonei meus costumes de menino, e as joaninhas se me tornaram algo raro de encontrar. Também muito dos quintais e da vegetação mudou, o que pode ter influenciado a escassez de joaninhas.
Vou tomar café da manhã, volto daqui a pouco.
Voltei, e trouxe comigo uma caneca de café preto quente e bom.
Este texto, escrevo-o de modo diferente. Experimento uma nova maneira. Talvez um novo estilo. Mas não fui eu que o criei, e não direi em quem me inspiro, porque sou uma pessoa até muito secreta. Embora alguns possam claramente perceber de quem provém minha inspiração.
O calor do café me esquentou um pouco. Liguei o ventilador, assim ele acelera a dissipação da brisa que entra voluntariosa pela vidraça da porta.
Fui tomar o café e interrompi meu assunto anterior. Eu falava de joaninhas. Vejamos onde parei… sim, na escassez de joaninhas. Esta é uma questão que perdura. De tal modo tornou-se-me raro encontrar um exemplar dessa espécie tão singela, que inventei o seguinte: joaninhas trazem desejos. Inventei que sempre quando vir uma joaninha, poderei fazer um pedido. A quem? Não sei. Apenas isso: fazer um pedido. Como acontece com as estrelas cadentes. Se os pedidos ou desejos se realizarão ou não, isso não importa. O que conta é a invenção desse novo rito: sempre quando aparecer uma joaninha, pode-se fazer um pedido. Esse hábito eu observo desde que o criei há alguns anos, e até hoje permanecera apenas meu hábito ou rito ou costume. Todavia, relatando-o aqui, passo-o aos eventuais leitores. Vendo uma joaninha, façam um pedido.
Esclareço, porém, que é somente um pedido. O caso não é o do gênio decrépito de uma empoeirada lâmpada. A decrepitude do gênio e a antiguidade da lâmpada permitem o luxo de três desejos. Meu rito é novo e limitei-o de propósito — tendo ao minimalismo.
Meu café acabou e, ainda há pouco, um pintinho piava desolado no quintal. Parou. Que lhe terá acontecido? Ontem, mataram uma pequena cobra em meu quintal. Temeram que ela comesse os pintinhos que ciscavam com a galinha-mãe num de meus canteiros. A cobra estava em outro canteiro. A galinha e os pintinhos são criação abusada de meu tio. A cobra foi a criação abusada do Deus.
Um biólogo meu conhecido, a quem contei da morte da cobra, não ficou feliz. Ele disse que ela deveria ter sido removida, e não morta. Mas que posso eu fazer? Nem todos são biólogos, e a natureza humana tende mesmo à intolerância.
Quero terminar este texto, e me seguro muito para não revisá-lo profundamente. Examinarei apenas a pontuação. Não trocarei palavras ou sentenças inteiras como costumo fazer em minhas supercríticas revisões. Até que ficou aprazível este texto. Gostei dele. Mas do que eu gostaria mesmo era fazer um pedido. Gostaria de encontrar uma joaninha. Não importa se fosse vermelha ou marrom — não tenho preconceitos. O que conta é o pedido. O que eu pediria? Ah, isso é segredo meu.
Protegido: Vocação
15/01/2010
À Espreita
12/01/2010
“Ninguém disse que o mundo seria justo. Quanto a isso jamais me iludi, e esperava sempre o pior dos cenários para que, em sobrevindo este, não me surpreendesse. Por que então, assumindo uma postura pessimista — a qual maquilaria na maior parte dos casos apenas para não afastar as pessoas, esses seres humanos temerosos — por que, assumindo eu essa postura, ainda me acontecia ser surpreendido vez por outra por algum fato ou situação?
Pergunto, mas já sei por quê. É que a esperança me espreita. Ardilosa, a esperança, dela não se diz à toa ser a última que morre. Por mais que tentasse de suas infectantes garras me livrar, jamais consegui de todo. A esperança é reincidente. A esperança é coisa humana.
Procurei em vão no mundo inumano a esperança. Não que com ela quisesse eu algo. Busquei-a disfarçadamente, assim como quem nada quer, como quem olha uma aglomeração de pessoas e dissimuladamente a esquadrinha à procura de alguém em específico. Todavia, não encontrei, sob qualquer aspecto, vestígio algum da esperança.
Mas no mundo humano, a esperança é e manifesta-se com intensa voluntariosidade sob qualquer forma. Por isso tentava não humanizar demais a minha vida. Mas, infelizmente, não é sempre que se logra alcançar a pura inumanidade.
Ademais, a esperança soube se tornar imprescindível à vida humana: prova de sua astúcia! Com suas artimanhas de matreira milenar, a esperança bem sabe como tomar cada e todo ser humano, e subjuga-o a seu bel-prazer.
Ainda assim, não me rendo. Insisto na exaustiva luta, mas sem me ludibriar, pois sei que é inútil. Sei que não resistirei por muito, e me deixarei sucumbir pelo ignominioso poder. Então, na calada da noite, a esperança me tomará rápida, silenciosa e plenamente. E dormirei. E acordarei. A face airosa abrindo-se em breve sorriso, o coração apaziguado, repleto de vigor.”

